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segunda-feira, 5 de março de 2012

A carnavalização na obra de Jorge Amado

Por Gildeci Leite*

Quem quiser pensar que o livro O País do Carnaval, de Jorge Amado, é uma exaltação à festa, pode até pensar, mas é preciso falar sobre o equívoco deste pensamento. Guardadas as diversas possibilidades de outras classificações da obra amadiana (um dia concluirei a minha proposta), lembro da divisão feita pelo antropólogo Roberto DaMatta.


Ele fala de duas fases. A primeira fase maniqueísta, pautada nos caminhos designados pelo Partido Comunista (PC) como única solução para todos os problemas sociais. Já a segunda fase, carnavalizadora, entende que para as questões da vida cotidiana e dos problemas sociais há mais de um caminho, mais de uma solução e às vezes a escolha pode ser a não escolha ou a escolha dos dois ao mesmo tempo, vide Dona Florípedes e seus dois consortes. DaMatta diz que a segunda fase começa em 1956 com a saída do escritor grapiúna do PC. Outras obras com passagens carnavalizadoras foram escritas antes, o que não é o exemplo de O País do Carnaval.

Dito isso tudo, preciso ainda lembrar que O País do Carnaval é um livro da primeira fase, mais precisamente de 1931. Nesse seu primeiro romance, o carnaval seria a própria barbárie e não condiziria com a proposta de construção de um país moderno.

Portanto quem quiser homenagear Jorge Amado neste carnaval referindo-se ao seu primeiro livro, sugiro que leia as obras verdadeiramente carnavalizadoras. Essas armadilhas são típicas de Amado, isso pode ser lido como uma forma de condenar a integralização da leitura após a batida de olhos no título da obra ou na orelha do livro. A orelha é irmã do ouvido, contudo não nos diz tudo que ouviu do irmão.

O mesmo também pode acontecer com o romance Jubiabá, pois o personagem principal não leva este nome e muitas vezes este equívoco é propalado. Balduíno, personagem principal do citado livro, é o primeiro protagonista negro que se tem notícia na literatura brasileira, mas isso é assunto para outro texto.

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Afirmar que em Amado há duas fases é, neste caso, também dizer que ele mudou de opinião e de postura. A altivez da mudança de posicionamento está no fato de assumir o que um dia foi e dizer o que será dali por diante. Com a postura carnavalesca, Amado destruiu a ilusão stalinista que um dia teve. Ele disse que Stalin foi seu pai e sua mãe, de Zélia também. Deixou tudo isso para trás quando descobriu que Stalin era um ditador. Então onde estariam os carnavais amadianos? Estão em todas as obras que discursam em favor da pluralidade e das múltiplas faces de nossa cultura. Estão em todas as construções dos personagens que possuem múltiplas identidades como todos nós.

Amado já apontava para a existência do ser plural: ao mesmo tempo pai e homem que vive a vida; ao mesmo tempo mãe e mulher que se completa sem o complexo de Virgem Maria e tantos outros papéis que somos e que vivemos. Contudo, talvez o nosso complexo de “vira-latas” nos impediu de ver o que sempre esteve ao alcance de nossos olhos: a formulação de teorias da crítica da cultura, hoje aceitas por nós, pois ditas por autores estrangeiros. Isso não nos leva a uma declaração de xenofobia (aversão ao que é estrangeiro), apenas a uma constatação de uma provável xenofilia (aversão ao que é nacional) praticada por muitos de nós. Xenofobia e xenofilia não combinam com Amado.

Neste Carnaval quando virem a alegria passar agarrarem-na, as obras de Amado estão ali. Quando tiverem êxtase com o Olodum, Filhos de Gandhi, Bankoma, Cortejo Afro, Ilê Aiyê, Malê Debalê e outros blocos afro, lembrem-se que a luta para o desfile dos motivos africanos e afro-brasileiros foi protagonizada em Tenda dos Milagres com o bloco ficcional Filhos da Bahia.

Você poderá encontrar um Vadinho, marido de Dona Flor, com saia e uma raiz de mandioca nas Muriquiranas, por exemplo.
Verá muitas homenagens em cima e atrás dos trios. Mas com certeza será na pipoca que encontrará diversas representações amadianas, carnavalizando o mundo com a alegria de viver, com a negra concepção aió, concepção alegre de viver.

Leia também:“Não existe uma Bahia, mas várias Bahias”, entrevista concedida por Gildeci para a revista Muito, do jornal A Tarde, edição de 26/02/2012.

*Gildeci de Oliveira Leite é professor e diretor do DCHT/Campus XXIII da UNEB, em Seabra. Este artigo foi publicado originalmente no jornal A Tarde, edição de 19/02/2012, na seção Opinião, pág. 2.

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